segunda-feira, 29 de março de 2010

DEFINITIVO

Cheio de saudade, permaneceu de bruços, esperando pela volta da luz. A noite castigava com trinta e poucos graus, umidade acima da média, buzinas impacientes e o cansaço tradicional de uma segunda-feira.

Finalmente foi obrigado a se reencontrar com a folha de papel e abandonar o descompromisso das teclas imprecisas da modernidade.

Estava na segunda taça de vinho quando percebeu como tinta e falta de energia elétrica estimulam a criatividade e externam, nos poros e na escrita, o que precisa ser exposto, ainda que apenas para si.

Teria encontrado algo que o faria tentar descrever em palavras o que seria impreciso nos sonhos.

Na falta de conhecimento de causa, se jogava sem receio naquilo que soava e pressentia como definitivo.

O desenrolar dos fatos e o amadurecimento do interesse tornara tangível o milagre do amor a primeira vista, gratuito, sem burocracia.

Distante, procurava materializar a realidade pouco provável. Ansiava desconstruir o poema de Chico e não transformar em pedra aquilo que havia no peito.

Era, literalmente, uma nova página.

Enfrentando-se, evitava o que pudesse refletir ansiedade.

Os dias arrastavam-se na iminência daquele que daria forma ao que, suspirando pelos cantos, desenhara.

Temia que a distância esfriasse o que parecia ter evoluído. Que em dez dias o perfeito se travestisse de insólito e minguasse.

Precisava avançar no tempo para encontrá-la pela terceira vez, antes que esquecesse da segunda, e deixasse de acreditar que era apenas a primeira do resto de suas vidas.