Cheio de saudade, permaneceu de bruços, esperando pela volta da luz. A noite castigava com trinta e poucos graus, umidade acima da média, buzinas impacientes e o cansaço tradicional de uma segunda-feira.
Finalmente foi obrigado a se reencontrar com a folha de papel e abandonar o descompromisso das teclas imprecisas da modernidade.
Estava na segunda taça de vinho quando percebeu como tinta e falta de energia elétrica estimulam a criatividade e externam, nos poros e na escrita, o que precisa ser exposto, ainda que apenas para si.
Teria encontrado algo que o faria tentar descrever em palavras o que seria impreciso nos sonhos.
Na falta de conhecimento de causa, se jogava sem receio naquilo que soava e pressentia como definitivo.
O desenrolar dos fatos e o amadurecimento do interesse tornara tangível o milagre do amor a primeira vista, gratuito, sem burocracia.
Distante, procurava materializar a realidade pouco provável. Ansiava desconstruir o poema de Chico e não transformar em pedra aquilo que havia no peito.
Era, literalmente, uma nova página.
Enfrentando-se, evitava o que pudesse refletir ansiedade.
Os dias arrastavam-se na iminência daquele que daria forma ao que, suspirando pelos cantos, desenhara.
Temia que a distância esfriasse o que parecia ter evoluído. Que em dez dias o perfeito se travestisse de insólito e minguasse.
Precisava avançar no tempo para encontrá-la pela terceira vez, antes que esquecesse da segunda, e deixasse de acreditar que era apenas a primeira do resto de suas vidas.
segunda-feira, 29 de março de 2010
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