Presenciamos, neste 02 de outubro, o grande dia da história do Brasil. O primeiro sinal de reverência e credibilidade a um povo criativo, guerreiro e iluminado, que traduz a essência do ser humano e personifica Deus, seja ELE o que você entenda por.
A vitória do pensamento “fora da caixa”, da arte, do poeta. A tardia percepção de que o burocrata tenta evitar o inevitável, podando nosso talento com suas exigências e formalidades sem fundamento, indo de encontro a uma realidade cada vez mais criativa/completa e menos óbvia/segmentada, ainda que o discurso ouvido por aí seja contrário à este conceito por ignorância ou hábito.
Como ouvi estes dias, o futuro é tudo aquilo que já existe hoje, sem as coisas que não fazem sentido dentro do contexto presente. É a escola incentivando o artista e a percepção de que a qualquer restrição exagerada leva a total transgressão das regras.
O brasileiro não existe de hoje. Há anos vemos as mesmas coisas que os outros, mas pensamos diferente; uma qualidade que nos maquiou o suficiente para não sermos levados a sério pelos “sérios”. Parece, no entanto, que esse tempo ficou para trás. A humanidade, enfim, optou pelo carisma; pela CRIATIVIDADE, o que verdadeiramente nos dá forma e consistência.
Eu não sei se vocês conseguem ter a dimensão do que aconteceu hoje.
Percebam que o futuro chegou, que o mundo mudou e que uma humanidade que escolhe o Rio de Janeiro para sediar as Olimpíadas está indo pelo caminho certo.
sexta-feira, 9 de outubro de 2009
sábado, 1 de agosto de 2009
COMPREI COM O DUDU
Sempre foi dos mais queridos, apesar da personalidade. Uma histeria cômica, levada na esportiva . Naquele dia, não estava nos melhores. Trabalho pra caralho, crise com a patroa... Queria tomar todas.
Eis que o telefone toca. Show do Lenny Kravitz, de graça, em Copa. Não era muito fã, mas havia baixado algumas músicas e faria parte dos 5% que conheceriam mais do que a abertura do show.
A dupla que ligou estava a caminho, num trânsito mais congestionado do que fila de banheiro em rodízio de água de coco. Convenceram e combinaram, depois de algum esforço, em frente ao Copacabana Palace, como se fossem íntimos.
A cidade rumava para o show. Isso é comum no Rio de Janeiro. Stones, É o Tchan, João Penca... Qualquer merda que seja de graça, vira calamidade.
Enfim, chegaram. Estacionaram na Nossa Senhora e rumaram ao Palace, para achar uma agulha careca no meio daquele palheiro. Se estivessem num helicóptero, com certeza mijariam na cabeça daquela gentalha. Mas faziam parte dos babacas que saíram de suas casas para fazer a alegria da vagabundagem e passar o perrengue do ano pra ver, de binóculo e sem áudio, o black power do Negão.
Na primeira cerveja, chegou um xinxeiro querendo se enturmar. A dupla fez de tudo pra deixar claro que não eram amigos e que ninguém ali tinha droga e muito menos intenção de patrociná-la. Mas, como desgraça pouca é bobagem, o filho da puta ficou lá enchendo a porra do saco. Já eram dez horas e nada da figura.
- Onde estás, porra?!
- No metrô, guentaê! Isso aqui tá um inferno! Tem um crioulo fedendo pra caralho do meu lado – disse, em tom de voz alto o suficiente para conhecimento, não só do crioulo que fedia, como dos dois vagões à frente.
Surge o Negão no alto do palco. O xinxeiro gritou que adorava aquela música, a da abertura. A dupla aproveitou para sair de perto. Se estabeleceram na areia, ao lado de uma tribo Hare Krishna. A figura não atendia mais o celular. Viam a hora que ia aparecer aquele líder do Hamas, carregado pelo povo em sua cadeira de rodas. Puta que pariu!
Na terceira música, tocou o telefone. Mal dava pra ouvir os berros que, no silêncio, perfurariam tímpanos. Pra piorar, o xinxeiro reencontrou a dupla e, exaltado, discutia com o que não estava ao telefone, reclamando do abandono no meio da passeata dos 500 mil cornos.
A figura havia desembarcado, mas não sabia onde. A esta altura, já haviam perdido o Palace de vista. O xinxeiro garantiu que poderia se localizar pela Rua República do Perú. Foi o que fez.
Travou batalhas que lhe dariam o comando do exército de William Wallace. Depois de ficar íntimo do sovaco de 900 pessoas, chegou ao ponto de encontro. A esta altura, as operadoras de telefone já haviam garantido alguns processos, já que os 500 mil cornos se ligavam, seja para juntarem os chifres ou apenas para comentar sobre a música muito foda que não conheciam.
Olhou para todos os lados, foi na areia, na água, na ilha; não encontrou a dupla. Desesperado, usava seu Krav Magá para manter o telefone no ouvido e a carteira no bolso.
“Infelizmente não podemos completar a ligação com o número discado. Tente novamente mais tarde.”
Foi para um orelhão.
- Alô PORRA!!! Tô aqui na República do Perú. Vocês não estão aqui nem por um caralho. Já rodei essa porra toda, seu filho da puta!
Princípio de confusão. A dupla empurrou o xinxeiro. Apuraram com o vendedor de churros: tratava-se da Duvivier e não da República do Perú. Ao saber, o que estava ao telefone estendeu o celular ao amigo e isentou-se: Você fala!
O show já estava no final. Até hoje algumas pessoas acham que foi o Lenny Kravitz quem deu aquele berro de filho da puta, ouvido não só na República do Perú, como também na República Tcheca.
Com carinho e muita paciência, foi convencido a procurar pela rua Duduvier. DUDUvier. O show acabou. Os troncos telefônicos esvaziaram-se, o suficiente para uma mensagem de texto:
“Essa rua não existe. Tô indo pra casa. Não me procurem mais.”
Eis que o telefone toca. Show do Lenny Kravitz, de graça, em Copa. Não era muito fã, mas havia baixado algumas músicas e faria parte dos 5% que conheceriam mais do que a abertura do show.
A dupla que ligou estava a caminho, num trânsito mais congestionado do que fila de banheiro em rodízio de água de coco. Convenceram e combinaram, depois de algum esforço, em frente ao Copacabana Palace, como se fossem íntimos.
A cidade rumava para o show. Isso é comum no Rio de Janeiro. Stones, É o Tchan, João Penca... Qualquer merda que seja de graça, vira calamidade.
Enfim, chegaram. Estacionaram na Nossa Senhora e rumaram ao Palace, para achar uma agulha careca no meio daquele palheiro. Se estivessem num helicóptero, com certeza mijariam na cabeça daquela gentalha. Mas faziam parte dos babacas que saíram de suas casas para fazer a alegria da vagabundagem e passar o perrengue do ano pra ver, de binóculo e sem áudio, o black power do Negão.
Na primeira cerveja, chegou um xinxeiro querendo se enturmar. A dupla fez de tudo pra deixar claro que não eram amigos e que ninguém ali tinha droga e muito menos intenção de patrociná-la. Mas, como desgraça pouca é bobagem, o filho da puta ficou lá enchendo a porra do saco. Já eram dez horas e nada da figura.
- Onde estás, porra?!
- No metrô, guentaê! Isso aqui tá um inferno! Tem um crioulo fedendo pra caralho do meu lado – disse, em tom de voz alto o suficiente para conhecimento, não só do crioulo que fedia, como dos dois vagões à frente.
Surge o Negão no alto do palco. O xinxeiro gritou que adorava aquela música, a da abertura. A dupla aproveitou para sair de perto. Se estabeleceram na areia, ao lado de uma tribo Hare Krishna. A figura não atendia mais o celular. Viam a hora que ia aparecer aquele líder do Hamas, carregado pelo povo em sua cadeira de rodas. Puta que pariu!
Na terceira música, tocou o telefone. Mal dava pra ouvir os berros que, no silêncio, perfurariam tímpanos. Pra piorar, o xinxeiro reencontrou a dupla e, exaltado, discutia com o que não estava ao telefone, reclamando do abandono no meio da passeata dos 500 mil cornos.
A figura havia desembarcado, mas não sabia onde. A esta altura, já haviam perdido o Palace de vista. O xinxeiro garantiu que poderia se localizar pela Rua República do Perú. Foi o que fez.
Travou batalhas que lhe dariam o comando do exército de William Wallace. Depois de ficar íntimo do sovaco de 900 pessoas, chegou ao ponto de encontro. A esta altura, as operadoras de telefone já haviam garantido alguns processos, já que os 500 mil cornos se ligavam, seja para juntarem os chifres ou apenas para comentar sobre a música muito foda que não conheciam.
Olhou para todos os lados, foi na areia, na água, na ilha; não encontrou a dupla. Desesperado, usava seu Krav Magá para manter o telefone no ouvido e a carteira no bolso.
“Infelizmente não podemos completar a ligação com o número discado. Tente novamente mais tarde.”
Foi para um orelhão.
- Alô PORRA!!! Tô aqui na República do Perú. Vocês não estão aqui nem por um caralho. Já rodei essa porra toda, seu filho da puta!
Princípio de confusão. A dupla empurrou o xinxeiro. Apuraram com o vendedor de churros: tratava-se da Duvivier e não da República do Perú. Ao saber, o que estava ao telefone estendeu o celular ao amigo e isentou-se: Você fala!
O show já estava no final. Até hoje algumas pessoas acham que foi o Lenny Kravitz quem deu aquele berro de filho da puta, ouvido não só na República do Perú, como também na República Tcheca.
Com carinho e muita paciência, foi convencido a procurar pela rua Duduvier. DUDUvier. O show acabou. Os troncos telefônicos esvaziaram-se, o suficiente para uma mensagem de texto:
“Essa rua não existe. Tô indo pra casa. Não me procurem mais.”
MENINO OU MENINA?
O garoto estava confuso.
Pouco mais de trinta mil pessoas saíram de suas casas naquela noite fria de quarta-feira para a segunda partida decisiva do Carioca de 88.
A decisão do ano anterior ainda estava fresca na cabeça do menino. Não esquecia do passe errado de Leandro, da velocidade daquele garoto - Romário - que tabelou com Roberto e levantou os braços na conclusão de Tita. Naquela partida, assistia e chorava pela Globo - TV e Rádio - ao mesmo tempo. O irmão mais velho, não. Não chorava. Levantou-se depois do soco na mesa e foi para o quarto. Só saiu do andar de cima do beliche no dia seguinte. O menino permaneceu no sofá.
Agora era diferente. Estava lá, na chuva. Havia tanto espaço na arquibancada do Flamengo que o garoto poderia correr de um lado para o outro comemorando a vitória.
Este ano, esperava ansioso pela virada da sorte. O Vasco estava atravessado. O irmão também. Não aceitou aquele esporro pela pergunta inoportuna. Não se sentia na obrigação de saber quem era Bismarck, Zé do Carmo ou Vivinho. Mal conhecia o Leonardo... Apesar disso, estava feliz. Tinha figurinhas do Zico, Zé Carlos, Aldair, Renato Gaúcho, Andrade e Alcindo. Faltavam Bebeto, Aílton e Zinho para completar as duas páginas do Flamengo. O técnico Carlinhos já estava separado com o amigo para trocar pelo escudo do Bangu.
Primeira vez, situação adversa. O empate bastava para o Vasco e a ingenuidade era o alento do menino. O irmão economizava a unha do dedo mindinho para o segundo tempo.
Ao contrário do mais velho, o garoto sabia pouco. O necessário. Uma vitória provocaria a realização de mais uma partida. Empate ou derrota do Flamengo, fariam com que a volta olímpica do Vasco fosse sua primeira recordação do Maracanã.
A torcida adversária estava eufórica. O título, nas mãos. O menino insistia em aguardar o apito final contrariando a vontade do irmão. Esperava por um milagre. Um gol no final do jogo... Aconteceu! Aos 44 do segundo tempo, Cocada deu um corte em Edinho e chutou forte com a perna esquerda. Quando Zé Carlos caiu no gramado, o lateral vascaíno já havia se livrado da camisa numa corrida alucinada na direção de Lazaroni. Acabou.
----------------------------------------------------------------------------------
Na marcha rubro-negra não havia ruído. Ninguém ousava protestar contra os craques, tantas vezes campeões brasileiros. O menino simplesmente saiu. Cabeça baixa, braço do irmão no ombro direito. Tão novo, ainda pouco íntimo do futebol e já sofria. Sofria por algo que não compreendia, mas sofria, de verdade.
Quando chegou na porta do prédio era aguardado por muitos. Uma recepção calorosa dos vizinhos vascaínos. Cantavam alto. O menino não saiu do carro. Subiu para o primeiro andar pelo elevador da garagem. O irmão foi para o beliche. O garoto ficou no sofá. Deja vú.
Triste, desceu para o play. Encheu o peito de coragem para encarar os vascaínos. A turma desfilava pela sinuca com faixas de bi-campeão. Constatou que o prédio inteiro era vascaíno. Mesmo os tricolores ou botafoguenses, eram vascaínos. Não entendia porque ninguém gostava do Flamengo. Se deparou com a realidade solitária: era o único rubro-negro com menos de dez anos no prédio.
Subiu animado e inocente. Abriu a porta com um sorriso no rosto. Um sorriso de vascaíno. Foi até o quarto e radiante gritou:
- Mano, virei Vasco!
Depois de três segundos de silêncio, levou um tapa na cara. O sorriso fechou junto com a mão na garganta do moleque. O pai veio de cueca da cozinha tentando evitar o pior. Conseguiu. Acalmaram-se, apesar dos cinco dedos na bochecha.
Eis a solução para o impasse imposta pelo pai: o menino iria ao próximo Flamengo e Vasco acompanhado do irmão. Assistiria mais uma partida antes de tomar uma decisão tão séria e definitiva, quase uma mudança de sexo. Aí sim, poderia tornar-se um vascaíno legítimo. Sem interferência do irmão, sem represálias, deixando claro que fiscalizaria a ditadura do mais velho.
Foram meses intermináveis. O garoto passou o resto do ano sem saber se era Flamengo ou Vasco. Os dois times mudaram um pouco mas ele perdeu o referencial por não ter o álbum do Campeonato Brasileiro. Chegou a ouvir no play do prédio que o Vasco havia vencido mais uma vez por 1 a 0, mas teve certeza de que se tratava de invenção dos amigos, já que o irmão não tinha lhe levado ao Maracanã.
Estava ansioso. Não aguentava mais ficar sem saber se era menino ou menina. Para o Papai Noel, pediu em segredo que marcassem um bendito Flamengo x Vasco. Na carta para o pai, pediu o álbum do Campeonato Carioca de 89. Não demorou para decorar a cara de Bujica, Luis Carlos, Rogério e Josimar. Tinha poucas figurinhas do Vasco, mas esforçou-se para não fazer feio no play em caso de mais uma vitória cruzmaltina. Estranhou o nome do Quiñonez e associou o zagueiro a Marco Antônio Boiadeiro, Sorato e William, para não esquecer que ele era jogador do Vasco, apesar de não ser brasileiro.
Era um misto de excitação e medo. Empolgado por poder se juntar aos amigos em caso de uma vitória do Vasco. Receio do irmão, que provavelmente nunca mais seria o mesmo em caso de outra derrota do Flamengo.
----------------------------------------------------------------------------------
Acordou assustado com a camisa do Zico no rosto. O irmão já aguardava uniformizado e exigiu que o menino fizesse o mesmo, ainda que fosse a última vez que vestissem a mesma camisa 10. O garoto tremeu. No carro, descendo a serra, recordava seu último Flamengo x Vasco. Lembrou do helicóptero da camisa do Cocada, agressivo e debochado.
Perguntou ao irmão qual seria o time deste domingo. Zico iria jogar? Queria saber nos pés de quem estava traçado seu futuro como flamenguista ou vascaíno. Aquele dia seria o divisor de águas. O vencedor, contaria para sempre com sua devoção, o perdedor, com seu desprezo.
Notou que o Maracanã estava um pouco diferente. Desta vez havia menos vascaínos e muitos flamenguistas. Aliás, não viu nenhum vascaíno até a entrada no estádio. Só se ouvia uma torcida do lado de fora e o garoto se empolgou. Parecia prever a vitória do Flamengo. Parecia ter a certeza de que permaneceria para sempre ao lado do irmão mais velho e isso lhe confortou.
Não lembrava desta entrada mas acabou sendo mais rápido. O policial não pediu para o mais velho levantar a camisa do Zico e acomodaram-se na parte de baixo da arquibancada. O Flamengo entrou em campo debaixo de uma chuva de papel higiênico e fogos de artifício. Zico estava lá e as outras figurinhas também. Até o Bujica.
A partida começou e o Flamengo partiu com tudo. Parecia uma máquina de jogar futebol. Uidemar era a supresa avançando por todos os lados do campo. Júnior multiplicava-se na armação e na contenção. Renato Gaúcho abria pelas pontas e os zagueiros adversários só conseguiam pará-lo com faltas. Zinho distribuia passes com a cabeça erguida. O Vasco não conseguia passar do meio-campo. Era o jogo de um time só. Aos 20 minutos do primeiro tempo, Zico recebeu de Zinho na entrada da área e chutou forte. A bola explodiu no travessão e o menino quase engasgou com o grito de gol.
No intervalo, os jogadores do Vasco entraram no vestiário bem embaixo da arquibancada onde estava. Percebeu que não conhecia ninguém e guardou a fisionomia do camisa 7 para conferir no álbum quando chegasse em casa. A camisa, inclusive, deveria ser o modelo novo que ouviu falar no play.
Aquele primeiro tempo acabou sem gols e o garoto começou a pensar no que faria em caso de empate.
O segundo tempo foi muito ruim. Nem parecia um clássico. Aliás, aquela partida estava definitivamente esquisita. Começou a perceber que não havia visto um torcedor adversário sequer. Logo a torcida do Vasco, tão esmagadora um ano antes, naquele Maracanã que parecia imenso. A partida caminhava para o final e o menino perguntou para o irmão quando seria o próximo jogo, cogitando adiar sua decisão.
Aos mesmos fatídicos 44 minutos, falta na entrada da área. O camisa 3 quase quebrou a perna do Zico. Ele mesmo preparou a cobrança. Passou a mão na bola e colocou quase em cima da linha da grande área. A barreira tinha sete jogadores do Vasco, aflitos por uma iminente bolada no saco. Zico deu cinco passos para trás, o garoto contou, atento e arrepiado. Dali, o Galinho não costumava perder. Era quase um pênalti. Júnior conversou com o craque e apontou para o canto em que o goleiro estava. Estranhou a ausência de Acácio montando a barreira vascaína. O camisa 10 olhou para o banco de reservas do Flamengo e o garoto teve a impressão de que havia lhe olhado também. Zico respirou fundo. Fitou a barreira calculando centímetros. Não olhou para a bola. Cobrou com efeito. Golaço!
Batendo no peito, correu na direção da arquibancada. O garoto ensurdeceu. O mais velho jogou o menino nos ombros e pulou descontrolado. O vendedor de mate arremessou o galão de aço, que explodiu no chão e molhou todo mundo. Uma festa! Com lágrimas nos olhos, o menino colou a testa no irmão e jurou:
- Serei Flamengo até morrer!
Emocionado, o mais velho abraçou o pequenino e ficaram ali, de joelhos, até ouvir o apito final, quando o sistema de som do estádio anunciou anasalado:
- Fim de jogo na Gávea - Flamengo um, Americano zero.
Pouco mais de trinta mil pessoas saíram de suas casas naquela noite fria de quarta-feira para a segunda partida decisiva do Carioca de 88.
A decisão do ano anterior ainda estava fresca na cabeça do menino. Não esquecia do passe errado de Leandro, da velocidade daquele garoto - Romário - que tabelou com Roberto e levantou os braços na conclusão de Tita. Naquela partida, assistia e chorava pela Globo - TV e Rádio - ao mesmo tempo. O irmão mais velho, não. Não chorava. Levantou-se depois do soco na mesa e foi para o quarto. Só saiu do andar de cima do beliche no dia seguinte. O menino permaneceu no sofá.
Agora era diferente. Estava lá, na chuva. Havia tanto espaço na arquibancada do Flamengo que o garoto poderia correr de um lado para o outro comemorando a vitória.
Este ano, esperava ansioso pela virada da sorte. O Vasco estava atravessado. O irmão também. Não aceitou aquele esporro pela pergunta inoportuna. Não se sentia na obrigação de saber quem era Bismarck, Zé do Carmo ou Vivinho. Mal conhecia o Leonardo... Apesar disso, estava feliz. Tinha figurinhas do Zico, Zé Carlos, Aldair, Renato Gaúcho, Andrade e Alcindo. Faltavam Bebeto, Aílton e Zinho para completar as duas páginas do Flamengo. O técnico Carlinhos já estava separado com o amigo para trocar pelo escudo do Bangu.
Primeira vez, situação adversa. O empate bastava para o Vasco e a ingenuidade era o alento do menino. O irmão economizava a unha do dedo mindinho para o segundo tempo.
Ao contrário do mais velho, o garoto sabia pouco. O necessário. Uma vitória provocaria a realização de mais uma partida. Empate ou derrota do Flamengo, fariam com que a volta olímpica do Vasco fosse sua primeira recordação do Maracanã.
A torcida adversária estava eufórica. O título, nas mãos. O menino insistia em aguardar o apito final contrariando a vontade do irmão. Esperava por um milagre. Um gol no final do jogo... Aconteceu! Aos 44 do segundo tempo, Cocada deu um corte em Edinho e chutou forte com a perna esquerda. Quando Zé Carlos caiu no gramado, o lateral vascaíno já havia se livrado da camisa numa corrida alucinada na direção de Lazaroni. Acabou.
----------------------------------------------------------------------------------
Na marcha rubro-negra não havia ruído. Ninguém ousava protestar contra os craques, tantas vezes campeões brasileiros. O menino simplesmente saiu. Cabeça baixa, braço do irmão no ombro direito. Tão novo, ainda pouco íntimo do futebol e já sofria. Sofria por algo que não compreendia, mas sofria, de verdade.
Quando chegou na porta do prédio era aguardado por muitos. Uma recepção calorosa dos vizinhos vascaínos. Cantavam alto. O menino não saiu do carro. Subiu para o primeiro andar pelo elevador da garagem. O irmão foi para o beliche. O garoto ficou no sofá. Deja vú.
Triste, desceu para o play. Encheu o peito de coragem para encarar os vascaínos. A turma desfilava pela sinuca com faixas de bi-campeão. Constatou que o prédio inteiro era vascaíno. Mesmo os tricolores ou botafoguenses, eram vascaínos. Não entendia porque ninguém gostava do Flamengo. Se deparou com a realidade solitária: era o único rubro-negro com menos de dez anos no prédio.
Subiu animado e inocente. Abriu a porta com um sorriso no rosto. Um sorriso de vascaíno. Foi até o quarto e radiante gritou:
- Mano, virei Vasco!
Depois de três segundos de silêncio, levou um tapa na cara. O sorriso fechou junto com a mão na garganta do moleque. O pai veio de cueca da cozinha tentando evitar o pior. Conseguiu. Acalmaram-se, apesar dos cinco dedos na bochecha.
Eis a solução para o impasse imposta pelo pai: o menino iria ao próximo Flamengo e Vasco acompanhado do irmão. Assistiria mais uma partida antes de tomar uma decisão tão séria e definitiva, quase uma mudança de sexo. Aí sim, poderia tornar-se um vascaíno legítimo. Sem interferência do irmão, sem represálias, deixando claro que fiscalizaria a ditadura do mais velho.
Foram meses intermináveis. O garoto passou o resto do ano sem saber se era Flamengo ou Vasco. Os dois times mudaram um pouco mas ele perdeu o referencial por não ter o álbum do Campeonato Brasileiro. Chegou a ouvir no play do prédio que o Vasco havia vencido mais uma vez por 1 a 0, mas teve certeza de que se tratava de invenção dos amigos, já que o irmão não tinha lhe levado ao Maracanã.
Estava ansioso. Não aguentava mais ficar sem saber se era menino ou menina. Para o Papai Noel, pediu em segredo que marcassem um bendito Flamengo x Vasco. Na carta para o pai, pediu o álbum do Campeonato Carioca de 89. Não demorou para decorar a cara de Bujica, Luis Carlos, Rogério e Josimar. Tinha poucas figurinhas do Vasco, mas esforçou-se para não fazer feio no play em caso de mais uma vitória cruzmaltina. Estranhou o nome do Quiñonez e associou o zagueiro a Marco Antônio Boiadeiro, Sorato e William, para não esquecer que ele era jogador do Vasco, apesar de não ser brasileiro.
Era um misto de excitação e medo. Empolgado por poder se juntar aos amigos em caso de uma vitória do Vasco. Receio do irmão, que provavelmente nunca mais seria o mesmo em caso de outra derrota do Flamengo.
----------------------------------------------------------------------------------
Acordou assustado com a camisa do Zico no rosto. O irmão já aguardava uniformizado e exigiu que o menino fizesse o mesmo, ainda que fosse a última vez que vestissem a mesma camisa 10. O garoto tremeu. No carro, descendo a serra, recordava seu último Flamengo x Vasco. Lembrou do helicóptero da camisa do Cocada, agressivo e debochado.
Perguntou ao irmão qual seria o time deste domingo. Zico iria jogar? Queria saber nos pés de quem estava traçado seu futuro como flamenguista ou vascaíno. Aquele dia seria o divisor de águas. O vencedor, contaria para sempre com sua devoção, o perdedor, com seu desprezo.
Notou que o Maracanã estava um pouco diferente. Desta vez havia menos vascaínos e muitos flamenguistas. Aliás, não viu nenhum vascaíno até a entrada no estádio. Só se ouvia uma torcida do lado de fora e o garoto se empolgou. Parecia prever a vitória do Flamengo. Parecia ter a certeza de que permaneceria para sempre ao lado do irmão mais velho e isso lhe confortou.
Não lembrava desta entrada mas acabou sendo mais rápido. O policial não pediu para o mais velho levantar a camisa do Zico e acomodaram-se na parte de baixo da arquibancada. O Flamengo entrou em campo debaixo de uma chuva de papel higiênico e fogos de artifício. Zico estava lá e as outras figurinhas também. Até o Bujica.
A partida começou e o Flamengo partiu com tudo. Parecia uma máquina de jogar futebol. Uidemar era a supresa avançando por todos os lados do campo. Júnior multiplicava-se na armação e na contenção. Renato Gaúcho abria pelas pontas e os zagueiros adversários só conseguiam pará-lo com faltas. Zinho distribuia passes com a cabeça erguida. O Vasco não conseguia passar do meio-campo. Era o jogo de um time só. Aos 20 minutos do primeiro tempo, Zico recebeu de Zinho na entrada da área e chutou forte. A bola explodiu no travessão e o menino quase engasgou com o grito de gol.
No intervalo, os jogadores do Vasco entraram no vestiário bem embaixo da arquibancada onde estava. Percebeu que não conhecia ninguém e guardou a fisionomia do camisa 7 para conferir no álbum quando chegasse em casa. A camisa, inclusive, deveria ser o modelo novo que ouviu falar no play.
Aquele primeiro tempo acabou sem gols e o garoto começou a pensar no que faria em caso de empate.
O segundo tempo foi muito ruim. Nem parecia um clássico. Aliás, aquela partida estava definitivamente esquisita. Começou a perceber que não havia visto um torcedor adversário sequer. Logo a torcida do Vasco, tão esmagadora um ano antes, naquele Maracanã que parecia imenso. A partida caminhava para o final e o menino perguntou para o irmão quando seria o próximo jogo, cogitando adiar sua decisão.
Aos mesmos fatídicos 44 minutos, falta na entrada da área. O camisa 3 quase quebrou a perna do Zico. Ele mesmo preparou a cobrança. Passou a mão na bola e colocou quase em cima da linha da grande área. A barreira tinha sete jogadores do Vasco, aflitos por uma iminente bolada no saco. Zico deu cinco passos para trás, o garoto contou, atento e arrepiado. Dali, o Galinho não costumava perder. Era quase um pênalti. Júnior conversou com o craque e apontou para o canto em que o goleiro estava. Estranhou a ausência de Acácio montando a barreira vascaína. O camisa 10 olhou para o banco de reservas do Flamengo e o garoto teve a impressão de que havia lhe olhado também. Zico respirou fundo. Fitou a barreira calculando centímetros. Não olhou para a bola. Cobrou com efeito. Golaço!
Batendo no peito, correu na direção da arquibancada. O garoto ensurdeceu. O mais velho jogou o menino nos ombros e pulou descontrolado. O vendedor de mate arremessou o galão de aço, que explodiu no chão e molhou todo mundo. Uma festa! Com lágrimas nos olhos, o menino colou a testa no irmão e jurou:
- Serei Flamengo até morrer!
Emocionado, o mais velho abraçou o pequenino e ficaram ali, de joelhos, até ouvir o apito final, quando o sistema de som do estádio anunciou anasalado:
- Fim de jogo na Gávea - Flamengo um, Americano zero.
RESUMINDO...
Há poucos anos atrás, eu não sabia o que era um blog. Descobri ao copiar o endereço que um amigo de infância divulgava e concluí tratar-se de uma ferramenta interessante. Como ele descreveu com propriedade no primeiro post, o que menos importa, pelo menos para nós dois, é o número de acessos, comentários e visitas. Também acredito que o valor de um blog está no exercício da escrita, na organização de idéias, e, porque não, compartilhá-las com alguém de vez em quando?
Esse blog nem foi idéia minha. Há algum tempo, outro velho amigo me perguntou num debate futebolístico de bar porque eu, um jornalista, apaixonado por futebol e pelo folclore do esporte, não inaugurava um espaço para meus delírios. Guardei a idéia e estou colocando em prática.
O tema não poderia ser outro. Não sei ao certo quando comecei a me interessar por futebol. Lembro do tio Ricardo, flamenguista doente, tentando me levar para o lado negro da força. Lembro do Ney, vascaíno doente, fazendo o papel de Luke Skywalker. Tenho vagas recordações da Copa de 86 e lembro de todos os detalhes da péssima Copa da Itália, em 1990. Parece que foi ontem que eu pedi para o meu pai ficar em casa, ao invés de assistir na casa do Resende. Foi naquela tarde ensolarada do Jardim Botânico que me escondi no banheiro, com vergonha de chorar na frente do velho, por causa do Caniggia, que eliminou a fraca Seleção do Lazaroni. Foi a primeira vez que eu chorei por causa de futebol. Primeira de muitas. Tinha oito anos.
Chorei de gaguejar no tetra, em 94. Ajoelhado, no play do prédio do Carlos Alberto, abraçado com o Darth Vader, a filha dele e um mendigo. Um mendigo. Chorei aliviado quando temrinou aquele infinito 0 a 0 entre Vasco e Palmeiras, em 97. Tricampeão brasileiro. Corpo presente. Inesquecível. Chorei de raiva na maior virada da história do futebol, quando o Vasco voltou para o segundo tempo perdendo de três para o mesmo Palmeiras, no Parque Antártica, e o Juninho Pernambucano promoveu o impossível socando o próprio peito. Chorei quando o Cafú se declarou para a Regina e quando saiu o terceiro da França, em 98. Gol daquele loiro cabeludo. Fugiu o nome...
Dizem as más línguas que gostei do Flamengo quando criança, mas é tudo boato, apesar da foto com o Zé Carlos na Gávea. Ele tava quase me pegando no colo, porra! Disseram também que assisiti duas partidas na tribuna de honra do Maraca, mas não lembro. Meu primeiro jogo mesmo foi um Vasco e Santos. 3 a 3. Três gols de Bebeto. Três gols de Paulinho Mc Laren. Nítido.
Além do Ney, do tio Ricardo, e da Copa do Mundo de 90 ao lado do meu pai, tive dois outros grandes portadores desse vírus contagioso que é o futebol.
Grande João, ou Janjão. Vocalista do Casuarina, que arrebenta, era e é um Botafoguense melancólico e fanático, como todos. Escolhíamos um jogador de cada país participante da Copa e fazíamos uma tabela. Eu era o cobrador e ele o goleiro. Os craques iam se confrontando em pênaltis até sair o campeão. Grandes tardes, intermináveis, no terreno onde foi construída a piscina da casa de Itaipava. Nunca iremos nos esquecer da final entre Balboa, zagueiro dos Estados Unidos, e um coreano que tinha Park como último nome, depois dos dezessete monossílabos.
O futebol de botão materializava o que não nasci capaz de fazer. Jogava no taco quebrado da sala do Jardim Botânico. Tinha uns trezentos times diferentes e fazia campeonatos contra eu mesmo. Os grandes do Rio, ficavam com os esquadrões de galalite. Os menores, com os de acrílico. Cheguei a fazer campeonato de futsal. Em oitenta e poucos ainda era futebol de salão. Venci o torneio do prédio e finalmente fui respeitado pelos mais velhos. Jogavam muita bola, sabiam desenhar, andavam de skate e sabiam a fórmula da água, mas, pelo menos no botão, eu fazia frente.
Filete era desvalorizado no mercado milionário dos botões da Corcovado 57, e seu passe não valia quase nada no meio de craques como Garrincha, Xisto e Saddam Husseim. O primeiro, terminou na quadra de tênis depois de uma briga na casa do Bernardo. Os outros permanecem guardados na minha lata de Almond Nuts. O Filete, aliás, jamais recebeu uma proposta de transferência. Diziam que ele não corria. Mas quando o dadinho tava 'no pé', colocava onde queria. Foi ele quem fez o gol do título, cobrando falta, parecido com o Zico. Eles tinham o mesmo estilo.
Fuinha, Tzilk, Ponta Branca, Band-Aid e Xisto; Titanic, Manoel Tobias, Menguinho e Saddam Husseim; Filete e Talismã. Técnico: Palheta Amarela. Um 4-4-2 clássico, bem brasileiro. Tinha o Torcedor também, feito de coco pelo meu avô, que era rápido e anão. Ótima aposta para o segundo tempo.
Dizem que as pessoas passam um terço da vida dormindo. Acho que passei o segundo terço da minha com coisas relacionadas ao futebol. Ao invés de dormir a gente virava a noite pintando a rua para a Copa. De 90, de 94... De 98 eu não estava mais lá. Não era mais criança. Triste.
É verdade. O tema não poderia mesmo ser outro... Nem música, nem cinema.
Futebol só é formal quando é romântico. Essas lembranças da infância foram.
O objetivo: discutir comigo mesmo. Publicar e reler um tempo depois para ver a evolução das minhas verdades.
Falar sobre a coisa mais importante do mundo.
Esse blog nem foi idéia minha. Há algum tempo, outro velho amigo me perguntou num debate futebolístico de bar porque eu, um jornalista, apaixonado por futebol e pelo folclore do esporte, não inaugurava um espaço para meus delírios. Guardei a idéia e estou colocando em prática.
O tema não poderia ser outro. Não sei ao certo quando comecei a me interessar por futebol. Lembro do tio Ricardo, flamenguista doente, tentando me levar para o lado negro da força. Lembro do Ney, vascaíno doente, fazendo o papel de Luke Skywalker. Tenho vagas recordações da Copa de 86 e lembro de todos os detalhes da péssima Copa da Itália, em 1990. Parece que foi ontem que eu pedi para o meu pai ficar em casa, ao invés de assistir na casa do Resende. Foi naquela tarde ensolarada do Jardim Botânico que me escondi no banheiro, com vergonha de chorar na frente do velho, por causa do Caniggia, que eliminou a fraca Seleção do Lazaroni. Foi a primeira vez que eu chorei por causa de futebol. Primeira de muitas. Tinha oito anos.
Chorei de gaguejar no tetra, em 94. Ajoelhado, no play do prédio do Carlos Alberto, abraçado com o Darth Vader, a filha dele e um mendigo. Um mendigo. Chorei aliviado quando temrinou aquele infinito 0 a 0 entre Vasco e Palmeiras, em 97. Tricampeão brasileiro. Corpo presente. Inesquecível. Chorei de raiva na maior virada da história do futebol, quando o Vasco voltou para o segundo tempo perdendo de três para o mesmo Palmeiras, no Parque Antártica, e o Juninho Pernambucano promoveu o impossível socando o próprio peito. Chorei quando o Cafú se declarou para a Regina e quando saiu o terceiro da França, em 98. Gol daquele loiro cabeludo. Fugiu o nome...
Dizem as más línguas que gostei do Flamengo quando criança, mas é tudo boato, apesar da foto com o Zé Carlos na Gávea. Ele tava quase me pegando no colo, porra! Disseram também que assisiti duas partidas na tribuna de honra do Maraca, mas não lembro. Meu primeiro jogo mesmo foi um Vasco e Santos. 3 a 3. Três gols de Bebeto. Três gols de Paulinho Mc Laren. Nítido.
Além do Ney, do tio Ricardo, e da Copa do Mundo de 90 ao lado do meu pai, tive dois outros grandes portadores desse vírus contagioso que é o futebol.
Grande João, ou Janjão. Vocalista do Casuarina, que arrebenta, era e é um Botafoguense melancólico e fanático, como todos. Escolhíamos um jogador de cada país participante da Copa e fazíamos uma tabela. Eu era o cobrador e ele o goleiro. Os craques iam se confrontando em pênaltis até sair o campeão. Grandes tardes, intermináveis, no terreno onde foi construída a piscina da casa de Itaipava. Nunca iremos nos esquecer da final entre Balboa, zagueiro dos Estados Unidos, e um coreano que tinha Park como último nome, depois dos dezessete monossílabos.
O futebol de botão materializava o que não nasci capaz de fazer. Jogava no taco quebrado da sala do Jardim Botânico. Tinha uns trezentos times diferentes e fazia campeonatos contra eu mesmo. Os grandes do Rio, ficavam com os esquadrões de galalite. Os menores, com os de acrílico. Cheguei a fazer campeonato de futsal. Em oitenta e poucos ainda era futebol de salão. Venci o torneio do prédio e finalmente fui respeitado pelos mais velhos. Jogavam muita bola, sabiam desenhar, andavam de skate e sabiam a fórmula da água, mas, pelo menos no botão, eu fazia frente.
Filete era desvalorizado no mercado milionário dos botões da Corcovado 57, e seu passe não valia quase nada no meio de craques como Garrincha, Xisto e Saddam Husseim. O primeiro, terminou na quadra de tênis depois de uma briga na casa do Bernardo. Os outros permanecem guardados na minha lata de Almond Nuts. O Filete, aliás, jamais recebeu uma proposta de transferência. Diziam que ele não corria. Mas quando o dadinho tava 'no pé', colocava onde queria. Foi ele quem fez o gol do título, cobrando falta, parecido com o Zico. Eles tinham o mesmo estilo.
Fuinha, Tzilk, Ponta Branca, Band-Aid e Xisto; Titanic, Manoel Tobias, Menguinho e Saddam Husseim; Filete e Talismã. Técnico: Palheta Amarela. Um 4-4-2 clássico, bem brasileiro. Tinha o Torcedor também, feito de coco pelo meu avô, que era rápido e anão. Ótima aposta para o segundo tempo.
Dizem que as pessoas passam um terço da vida dormindo. Acho que passei o segundo terço da minha com coisas relacionadas ao futebol. Ao invés de dormir a gente virava a noite pintando a rua para a Copa. De 90, de 94... De 98 eu não estava mais lá. Não era mais criança. Triste.
É verdade. O tema não poderia mesmo ser outro... Nem música, nem cinema.
Futebol só é formal quando é romântico. Essas lembranças da infância foram.
O objetivo: discutir comigo mesmo. Publicar e reler um tempo depois para ver a evolução das minhas verdades.
Falar sobre a coisa mais importante do mundo.
ENFIM, O BATUQUE!
Um calor do caralho, mas a viagem até aqui havia refrescado, ou derretido; essas coisas de maresia.
Estavam todos nos esperando, ainda que dormindo. O Ipod, largado em cima da caixa, tocando Groundation. Que recepção! Podem continuar dormindo, viados...
Porra nenhuma, vou acordar.
Vagabundo pronto pro rango com duas fatias de queijo, entre outras coisas. Engraçado... Nego sempre vem tomar café com aquele ar de Planeta dos Macacos, olhando pro pão fresco como se fosse a porra dum ovni.
Tinha que armar a barraca. Vou chamar um puto prestativo aqui pra me ajudar. Chegou o puto. Tá suado que nem um porco. Agora tá mó bafo mermo. Foda-se. Vou tomar um banho gelado.
No susto, acabou o som. Ficamos órfãos da porra do Groundation. Sorte que aquele maconheiro sabe levar um Marley na viola.
Puta que pariu, corto ou não corto essa porra de valete? Se eles ficarem com essa mão, só volto a jogar daqui a uns 40 minutos. E aí, qual vai ser? Foda-se. Vou jogar o sete nessa porra. A filha da puta não pode ter um ás...
É, fudeu. Vou ter que ir lá na pedra dar um dois com esse muleque. O vento vai fumar mais que a gente, mas tá tranqüilo, porque eu só quero dar um tapa.
Neguinho tá chapado pra caralho. Tomara que não venha nenhum careta trocar idéia nos próximos 40 minutos. Tô afim de falar merda.
Não acredito! O almoço tá na mesa no auge da larica.
----------------------------------------------------------------------------------
Caralho... Será que eu lembrei da porra do Sonrisal?
Vou deitar na barraca. Mesmo sem ventilador, acho que dá.
Tô cheiroso pra caralho! Daqui a pouco um filho da puta fedendo a cidra vai se esfregar em mim, mas que se foda, é festa! Só num pode tocar essas porras de soca-soca...
Vagabundo tá ficando panqueca e ainda bem que só tô sentindo a onda da birita. Foi a porra do Sonrisal. Muito foda esse remédio. Sempre que tomo, lembro daquela piada em que um casal de sonrisais se fodia quando passava na pôsss.... Que pôsss...?
Caralho... To seqüelando nessa porra de pôssss...
A cada cinco minutos alguém mete o dedo no volume e isso aqui já tá parecendo o Castelo das Pedras. Sorte que tá tocando coisa melhor, apesar de não gostar do Pedro Luís.
Tá ficando animado... Já abracei uns quinze e falei que amava sete; esse ano eu contei.
Uhull! Alucinado! Já passei por isso hoje, mas a onda era diferente. O maconheiro do violão tá me chamando pra fumar outro. Tô fora, amigo. Se vira na lanterninha.
Todo mundo se juntou na escada pra caber na foto, mas duvido. Aumentaram o som de novo. Vai explodir a porra toda, mas eu é que não tenho a mínima condição de interferir em nada. Agora quero mais é ir pro caralho mermo. Vou começar a sambar e que se foda. Pior que o pé tá doendo, mas que se foda o pé também. Que se foda o pé, que se foda o samba...
Vagabundo tá se esfregando suado. Irado!!! Uh! É Monobloco. O Pedro Luís é bom pra caralho! Me dá esse microfone aqui. Vou falar umas merdas pra neguinho se ligar no que tá rolando.
Eu amo vocês, porra! Feliz ano novo!
Estavam todos nos esperando, ainda que dormindo. O Ipod, largado em cima da caixa, tocando Groundation. Que recepção! Podem continuar dormindo, viados...
Porra nenhuma, vou acordar.
Vagabundo pronto pro rango com duas fatias de queijo, entre outras coisas. Engraçado... Nego sempre vem tomar café com aquele ar de Planeta dos Macacos, olhando pro pão fresco como se fosse a porra dum ovni.
Tinha que armar a barraca. Vou chamar um puto prestativo aqui pra me ajudar. Chegou o puto. Tá suado que nem um porco. Agora tá mó bafo mermo. Foda-se. Vou tomar um banho gelado.
No susto, acabou o som. Ficamos órfãos da porra do Groundation. Sorte que aquele maconheiro sabe levar um Marley na viola.
Puta que pariu, corto ou não corto essa porra de valete? Se eles ficarem com essa mão, só volto a jogar daqui a uns 40 minutos. E aí, qual vai ser? Foda-se. Vou jogar o sete nessa porra. A filha da puta não pode ter um ás...
É, fudeu. Vou ter que ir lá na pedra dar um dois com esse muleque. O vento vai fumar mais que a gente, mas tá tranqüilo, porque eu só quero dar um tapa.
Neguinho tá chapado pra caralho. Tomara que não venha nenhum careta trocar idéia nos próximos 40 minutos. Tô afim de falar merda.
Não acredito! O almoço tá na mesa no auge da larica.
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Caralho... Será que eu lembrei da porra do Sonrisal?
Vou deitar na barraca. Mesmo sem ventilador, acho que dá.
Tô cheiroso pra caralho! Daqui a pouco um filho da puta fedendo a cidra vai se esfregar em mim, mas que se foda, é festa! Só num pode tocar essas porras de soca-soca...
Vagabundo tá ficando panqueca e ainda bem que só tô sentindo a onda da birita. Foi a porra do Sonrisal. Muito foda esse remédio. Sempre que tomo, lembro daquela piada em que um casal de sonrisais se fodia quando passava na pôsss.... Que pôsss...?
Caralho... To seqüelando nessa porra de pôssss...
A cada cinco minutos alguém mete o dedo no volume e isso aqui já tá parecendo o Castelo das Pedras. Sorte que tá tocando coisa melhor, apesar de não gostar do Pedro Luís.
Tá ficando animado... Já abracei uns quinze e falei que amava sete; esse ano eu contei.
Uhull! Alucinado! Já passei por isso hoje, mas a onda era diferente. O maconheiro do violão tá me chamando pra fumar outro. Tô fora, amigo. Se vira na lanterninha.
Todo mundo se juntou na escada pra caber na foto, mas duvido. Aumentaram o som de novo. Vai explodir a porra toda, mas eu é que não tenho a mínima condição de interferir em nada. Agora quero mais é ir pro caralho mermo. Vou começar a sambar e que se foda. Pior que o pé tá doendo, mas que se foda o pé também. Que se foda o pé, que se foda o samba...
Vagabundo tá se esfregando suado. Irado!!! Uh! É Monobloco. O Pedro Luís é bom pra caralho! Me dá esse microfone aqui. Vou falar umas merdas pra neguinho se ligar no que tá rolando.
Eu amo vocês, porra! Feliz ano novo!
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