O garoto estava confuso.
Pouco mais de trinta mil pessoas saíram de suas casas naquela noite fria de quarta-feira para a segunda partida decisiva do Carioca de 88.
A decisão do ano anterior ainda estava fresca na cabeça do menino. Não esquecia do passe errado de Leandro, da velocidade daquele garoto - Romário - que tabelou com Roberto e levantou os braços na conclusão de Tita. Naquela partida, assistia e chorava pela Globo - TV e Rádio - ao mesmo tempo. O irmão mais velho, não. Não chorava. Levantou-se depois do soco na mesa e foi para o quarto. Só saiu do andar de cima do beliche no dia seguinte. O menino permaneceu no sofá.
Agora era diferente. Estava lá, na chuva. Havia tanto espaço na arquibancada do Flamengo que o garoto poderia correr de um lado para o outro comemorando a vitória.
Este ano, esperava ansioso pela virada da sorte. O Vasco estava atravessado. O irmão também. Não aceitou aquele esporro pela pergunta inoportuna. Não se sentia na obrigação de saber quem era Bismarck, Zé do Carmo ou Vivinho. Mal conhecia o Leonardo... Apesar disso, estava feliz. Tinha figurinhas do Zico, Zé Carlos, Aldair, Renato Gaúcho, Andrade e Alcindo. Faltavam Bebeto, Aílton e Zinho para completar as duas páginas do Flamengo. O técnico Carlinhos já estava separado com o amigo para trocar pelo escudo do Bangu.
Primeira vez, situação adversa. O empate bastava para o Vasco e a ingenuidade era o alento do menino. O irmão economizava a unha do dedo mindinho para o segundo tempo.
Ao contrário do mais velho, o garoto sabia pouco. O necessário. Uma vitória provocaria a realização de mais uma partida. Empate ou derrota do Flamengo, fariam com que a volta olímpica do Vasco fosse sua primeira recordação do Maracanã.
A torcida adversária estava eufórica. O título, nas mãos. O menino insistia em aguardar o apito final contrariando a vontade do irmão. Esperava por um milagre. Um gol no final do jogo... Aconteceu! Aos 44 do segundo tempo, Cocada deu um corte em Edinho e chutou forte com a perna esquerda. Quando Zé Carlos caiu no gramado, o lateral vascaíno já havia se livrado da camisa numa corrida alucinada na direção de Lazaroni. Acabou.
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Na marcha rubro-negra não havia ruído. Ninguém ousava protestar contra os craques, tantas vezes campeões brasileiros. O menino simplesmente saiu. Cabeça baixa, braço do irmão no ombro direito. Tão novo, ainda pouco íntimo do futebol e já sofria. Sofria por algo que não compreendia, mas sofria, de verdade.
Quando chegou na porta do prédio era aguardado por muitos. Uma recepção calorosa dos vizinhos vascaínos. Cantavam alto. O menino não saiu do carro. Subiu para o primeiro andar pelo elevador da garagem. O irmão foi para o beliche. O garoto ficou no sofá. Deja vú.
Triste, desceu para o play. Encheu o peito de coragem para encarar os vascaínos. A turma desfilava pela sinuca com faixas de bi-campeão. Constatou que o prédio inteiro era vascaíno. Mesmo os tricolores ou botafoguenses, eram vascaínos. Não entendia porque ninguém gostava do Flamengo. Se deparou com a realidade solitária: era o único rubro-negro com menos de dez anos no prédio.
Subiu animado e inocente. Abriu a porta com um sorriso no rosto. Um sorriso de vascaíno. Foi até o quarto e radiante gritou:
- Mano, virei Vasco!
Depois de três segundos de silêncio, levou um tapa na cara. O sorriso fechou junto com a mão na garganta do moleque. O pai veio de cueca da cozinha tentando evitar o pior. Conseguiu. Acalmaram-se, apesar dos cinco dedos na bochecha.
Eis a solução para o impasse imposta pelo pai: o menino iria ao próximo Flamengo e Vasco acompanhado do irmão. Assistiria mais uma partida antes de tomar uma decisão tão séria e definitiva, quase uma mudança de sexo. Aí sim, poderia tornar-se um vascaíno legítimo. Sem interferência do irmão, sem represálias, deixando claro que fiscalizaria a ditadura do mais velho.
Foram meses intermináveis. O garoto passou o resto do ano sem saber se era Flamengo ou Vasco. Os dois times mudaram um pouco mas ele perdeu o referencial por não ter o álbum do Campeonato Brasileiro. Chegou a ouvir no play do prédio que o Vasco havia vencido mais uma vez por 1 a 0, mas teve certeza de que se tratava de invenção dos amigos, já que o irmão não tinha lhe levado ao Maracanã.
Estava ansioso. Não aguentava mais ficar sem saber se era menino ou menina. Para o Papai Noel, pediu em segredo que marcassem um bendito Flamengo x Vasco. Na carta para o pai, pediu o álbum do Campeonato Carioca de 89. Não demorou para decorar a cara de Bujica, Luis Carlos, Rogério e Josimar. Tinha poucas figurinhas do Vasco, mas esforçou-se para não fazer feio no play em caso de mais uma vitória cruzmaltina. Estranhou o nome do Quiñonez e associou o zagueiro a Marco Antônio Boiadeiro, Sorato e William, para não esquecer que ele era jogador do Vasco, apesar de não ser brasileiro.
Era um misto de excitação e medo. Empolgado por poder se juntar aos amigos em caso de uma vitória do Vasco. Receio do irmão, que provavelmente nunca mais seria o mesmo em caso de outra derrota do Flamengo.
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Acordou assustado com a camisa do Zico no rosto. O irmão já aguardava uniformizado e exigiu que o menino fizesse o mesmo, ainda que fosse a última vez que vestissem a mesma camisa 10. O garoto tremeu. No carro, descendo a serra, recordava seu último Flamengo x Vasco. Lembrou do helicóptero da camisa do Cocada, agressivo e debochado.
Perguntou ao irmão qual seria o time deste domingo. Zico iria jogar? Queria saber nos pés de quem estava traçado seu futuro como flamenguista ou vascaíno. Aquele dia seria o divisor de águas. O vencedor, contaria para sempre com sua devoção, o perdedor, com seu desprezo.
Notou que o Maracanã estava um pouco diferente. Desta vez havia menos vascaínos e muitos flamenguistas. Aliás, não viu nenhum vascaíno até a entrada no estádio. Só se ouvia uma torcida do lado de fora e o garoto se empolgou. Parecia prever a vitória do Flamengo. Parecia ter a certeza de que permaneceria para sempre ao lado do irmão mais velho e isso lhe confortou.
Não lembrava desta entrada mas acabou sendo mais rápido. O policial não pediu para o mais velho levantar a camisa do Zico e acomodaram-se na parte de baixo da arquibancada. O Flamengo entrou em campo debaixo de uma chuva de papel higiênico e fogos de artifício. Zico estava lá e as outras figurinhas também. Até o Bujica.
A partida começou e o Flamengo partiu com tudo. Parecia uma máquina de jogar futebol. Uidemar era a supresa avançando por todos os lados do campo. Júnior multiplicava-se na armação e na contenção. Renato Gaúcho abria pelas pontas e os zagueiros adversários só conseguiam pará-lo com faltas. Zinho distribuia passes com a cabeça erguida. O Vasco não conseguia passar do meio-campo. Era o jogo de um time só. Aos 20 minutos do primeiro tempo, Zico recebeu de Zinho na entrada da área e chutou forte. A bola explodiu no travessão e o menino quase engasgou com o grito de gol.
No intervalo, os jogadores do Vasco entraram no vestiário bem embaixo da arquibancada onde estava. Percebeu que não conhecia ninguém e guardou a fisionomia do camisa 7 para conferir no álbum quando chegasse em casa. A camisa, inclusive, deveria ser o modelo novo que ouviu falar no play.
Aquele primeiro tempo acabou sem gols e o garoto começou a pensar no que faria em caso de empate.
O segundo tempo foi muito ruim. Nem parecia um clássico. Aliás, aquela partida estava definitivamente esquisita. Começou a perceber que não havia visto um torcedor adversário sequer. Logo a torcida do Vasco, tão esmagadora um ano antes, naquele Maracanã que parecia imenso. A partida caminhava para o final e o menino perguntou para o irmão quando seria o próximo jogo, cogitando adiar sua decisão.
Aos mesmos fatídicos 44 minutos, falta na entrada da área. O camisa 3 quase quebrou a perna do Zico. Ele mesmo preparou a cobrança. Passou a mão na bola e colocou quase em cima da linha da grande área. A barreira tinha sete jogadores do Vasco, aflitos por uma iminente bolada no saco. Zico deu cinco passos para trás, o garoto contou, atento e arrepiado. Dali, o Galinho não costumava perder. Era quase um pênalti. Júnior conversou com o craque e apontou para o canto em que o goleiro estava. Estranhou a ausência de Acácio montando a barreira vascaína. O camisa 10 olhou para o banco de reservas do Flamengo e o garoto teve a impressão de que havia lhe olhado também. Zico respirou fundo. Fitou a barreira calculando centímetros. Não olhou para a bola. Cobrou com efeito. Golaço!
Batendo no peito, correu na direção da arquibancada. O garoto ensurdeceu. O mais velho jogou o menino nos ombros e pulou descontrolado. O vendedor de mate arremessou o galão de aço, que explodiu no chão e molhou todo mundo. Uma festa! Com lágrimas nos olhos, o menino colou a testa no irmão e jurou:
- Serei Flamengo até morrer!
Emocionado, o mais velho abraçou o pequenino e ficaram ali, de joelhos, até ouvir o apito final, quando o sistema de som do estádio anunciou anasalado:
- Fim de jogo na Gávea - Flamengo um, Americano zero.
sábado, 1 de agosto de 2009
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