Há poucos anos atrás, eu não sabia o que era um blog. Descobri ao copiar o endereço que um amigo de infância divulgava e concluí tratar-se de uma ferramenta interessante. Como ele descreveu com propriedade no primeiro post, o que menos importa, pelo menos para nós dois, é o número de acessos, comentários e visitas. Também acredito que o valor de um blog está no exercício da escrita, na organização de idéias, e, porque não, compartilhá-las com alguém de vez em quando?
Esse blog nem foi idéia minha. Há algum tempo, outro velho amigo me perguntou num debate futebolístico de bar porque eu, um jornalista, apaixonado por futebol e pelo folclore do esporte, não inaugurava um espaço para meus delírios. Guardei a idéia e estou colocando em prática.
O tema não poderia ser outro. Não sei ao certo quando comecei a me interessar por futebol. Lembro do tio Ricardo, flamenguista doente, tentando me levar para o lado negro da força. Lembro do Ney, vascaíno doente, fazendo o papel de Luke Skywalker. Tenho vagas recordações da Copa de 86 e lembro de todos os detalhes da péssima Copa da Itália, em 1990. Parece que foi ontem que eu pedi para o meu pai ficar em casa, ao invés de assistir na casa do Resende. Foi naquela tarde ensolarada do Jardim Botânico que me escondi no banheiro, com vergonha de chorar na frente do velho, por causa do Caniggia, que eliminou a fraca Seleção do Lazaroni. Foi a primeira vez que eu chorei por causa de futebol. Primeira de muitas. Tinha oito anos.
Chorei de gaguejar no tetra, em 94. Ajoelhado, no play do prédio do Carlos Alberto, abraçado com o Darth Vader, a filha dele e um mendigo. Um mendigo. Chorei aliviado quando temrinou aquele infinito 0 a 0 entre Vasco e Palmeiras, em 97. Tricampeão brasileiro. Corpo presente. Inesquecível. Chorei de raiva na maior virada da história do futebol, quando o Vasco voltou para o segundo tempo perdendo de três para o mesmo Palmeiras, no Parque Antártica, e o Juninho Pernambucano promoveu o impossível socando o próprio peito. Chorei quando o Cafú se declarou para a Regina e quando saiu o terceiro da França, em 98. Gol daquele loiro cabeludo. Fugiu o nome...
Dizem as más línguas que gostei do Flamengo quando criança, mas é tudo boato, apesar da foto com o Zé Carlos na Gávea. Ele tava quase me pegando no colo, porra! Disseram também que assisiti duas partidas na tribuna de honra do Maraca, mas não lembro. Meu primeiro jogo mesmo foi um Vasco e Santos. 3 a 3. Três gols de Bebeto. Três gols de Paulinho Mc Laren. Nítido.
Além do Ney, do tio Ricardo, e da Copa do Mundo de 90 ao lado do meu pai, tive dois outros grandes portadores desse vírus contagioso que é o futebol.
Grande João, ou Janjão. Vocalista do Casuarina, que arrebenta, era e é um Botafoguense melancólico e fanático, como todos. Escolhíamos um jogador de cada país participante da Copa e fazíamos uma tabela. Eu era o cobrador e ele o goleiro. Os craques iam se confrontando em pênaltis até sair o campeão. Grandes tardes, intermináveis, no terreno onde foi construída a piscina da casa de Itaipava. Nunca iremos nos esquecer da final entre Balboa, zagueiro dos Estados Unidos, e um coreano que tinha Park como último nome, depois dos dezessete monossílabos.
O futebol de botão materializava o que não nasci capaz de fazer. Jogava no taco quebrado da sala do Jardim Botânico. Tinha uns trezentos times diferentes e fazia campeonatos contra eu mesmo. Os grandes do Rio, ficavam com os esquadrões de galalite. Os menores, com os de acrílico. Cheguei a fazer campeonato de futsal. Em oitenta e poucos ainda era futebol de salão. Venci o torneio do prédio e finalmente fui respeitado pelos mais velhos. Jogavam muita bola, sabiam desenhar, andavam de skate e sabiam a fórmula da água, mas, pelo menos no botão, eu fazia frente.
Filete era desvalorizado no mercado milionário dos botões da Corcovado 57, e seu passe não valia quase nada no meio de craques como Garrincha, Xisto e Saddam Husseim. O primeiro, terminou na quadra de tênis depois de uma briga na casa do Bernardo. Os outros permanecem guardados na minha lata de Almond Nuts. O Filete, aliás, jamais recebeu uma proposta de transferência. Diziam que ele não corria. Mas quando o dadinho tava 'no pé', colocava onde queria. Foi ele quem fez o gol do título, cobrando falta, parecido com o Zico. Eles tinham o mesmo estilo.
Fuinha, Tzilk, Ponta Branca, Band-Aid e Xisto; Titanic, Manoel Tobias, Menguinho e Saddam Husseim; Filete e Talismã. Técnico: Palheta Amarela. Um 4-4-2 clássico, bem brasileiro. Tinha o Torcedor também, feito de coco pelo meu avô, que era rápido e anão. Ótima aposta para o segundo tempo.
Dizem que as pessoas passam um terço da vida dormindo. Acho que passei o segundo terço da minha com coisas relacionadas ao futebol. Ao invés de dormir a gente virava a noite pintando a rua para a Copa. De 90, de 94... De 98 eu não estava mais lá. Não era mais criança. Triste.
É verdade. O tema não poderia mesmo ser outro... Nem música, nem cinema.
Futebol só é formal quando é romântico. Essas lembranças da infância foram.
O objetivo: discutir comigo mesmo. Publicar e reler um tempo depois para ver a evolução das minhas verdades.
Falar sobre a coisa mais importante do mundo.
sábado, 1 de agosto de 2009
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