sábado, 1 de agosto de 2009

COMPREI COM O DUDU

Sempre foi dos mais queridos, apesar da personalidade. Uma histeria cômica, levada na esportiva . Naquele dia, não estava nos melhores. Trabalho pra caralho, crise com a patroa... Queria tomar todas.

Eis que o telefone toca. Show do Lenny Kravitz, de graça, em Copa. Não era muito fã, mas havia baixado algumas músicas e faria parte dos 5% que conheceriam mais do que a abertura do show.

A dupla que ligou estava a caminho, num trânsito mais congestionado do que fila de banheiro em rodízio de água de coco. Convenceram e combinaram, depois de algum esforço, em frente ao Copacabana Palace, como se fossem íntimos.

A cidade rumava para o show. Isso é comum no Rio de Janeiro. Stones, É o Tchan, João Penca... Qualquer merda que seja de graça, vira calamidade.

Enfim, chegaram. Estacionaram na Nossa Senhora e rumaram ao Palace, para achar uma agulha careca no meio daquele palheiro. Se estivessem num helicóptero, com certeza mijariam na cabeça daquela gentalha. Mas faziam parte dos babacas que saíram de suas casas para fazer a alegria da vagabundagem e passar o perrengue do ano pra ver, de binóculo e sem áudio, o black power do Negão.

Na primeira cerveja, chegou um xinxeiro querendo se enturmar. A dupla fez de tudo pra deixar claro que não eram amigos e que ninguém ali tinha droga e muito menos intenção de patrociná-la. Mas, como desgraça pouca é bobagem, o filho da puta ficou lá enchendo a porra do saco. Já eram dez horas e nada da figura.

- Onde estás, porra?!
- No metrô, guentaê! Isso aqui tá um inferno! Tem um crioulo fedendo pra caralho do meu lado – disse, em tom de voz alto o suficiente para conhecimento, não só do crioulo que fedia, como dos dois vagões à frente.

Surge o Negão no alto do palco. O xinxeiro gritou que adorava aquela música, a da abertura. A dupla aproveitou para sair de perto. Se estabeleceram na areia, ao lado de uma tribo Hare Krishna. A figura não atendia mais o celular. Viam a hora que ia aparecer aquele líder do Hamas, carregado pelo povo em sua cadeira de rodas. Puta que pariu!

Na terceira música, tocou o telefone. Mal dava pra ouvir os berros que, no silêncio, perfurariam tímpanos. Pra piorar, o xinxeiro reencontrou a dupla e, exaltado, discutia com o que não estava ao telefone, reclamando do abandono no meio da passeata dos 500 mil cornos.

A figura havia desembarcado, mas não sabia onde. A esta altura, já haviam perdido o Palace de vista. O xinxeiro garantiu que poderia se localizar pela Rua República do Perú. Foi o que fez.

Travou batalhas que lhe dariam o comando do exército de William Wallace. Depois de ficar íntimo do sovaco de 900 pessoas, chegou ao ponto de encontro. A esta altura, as operadoras de telefone já haviam garantido alguns processos, já que os 500 mil cornos se ligavam, seja para juntarem os chifres ou apenas para comentar sobre a música muito foda que não conheciam.

Olhou para todos os lados, foi na areia, na água, na ilha; não encontrou a dupla. Desesperado, usava seu Krav Magá para manter o telefone no ouvido e a carteira no bolso.

“Infelizmente não podemos completar a ligação com o número discado. Tente novamente mais tarde.”

Foi para um orelhão.

- Alô PORRA!!! Tô aqui na República do Perú. Vocês não estão aqui nem por um caralho. Já rodei essa porra toda, seu filho da puta!

Princípio de confusão. A dupla empurrou o xinxeiro. Apuraram com o vendedor de churros: tratava-se da Duvivier e não da República do Perú. Ao saber, o que estava ao telefone estendeu o celular ao amigo e isentou-se: Você fala!

O show já estava no final. Até hoje algumas pessoas acham que foi o Lenny Kravitz quem deu aquele berro de filho da puta, ouvido não só na República do Perú, como também na República Tcheca.

Com carinho e muita paciência, foi convencido a procurar pela rua Duduvier. DUDUvier. O show acabou. Os troncos telefônicos esvaziaram-se, o suficiente para uma mensagem de texto:

“Essa rua não existe. Tô indo pra casa. Não me procurem mais.”

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